terça-feira, 24 de setembro de 2013

X.


Uma leve brisa, feito um sopro frio e invisível ao pé do ouvido, um perfume sentido que não se sabe como e de onde vem enquanto você caminha ao lado de sua sombra por uma rua úmida pois acabara de chover. Já é noite, todos se trancam em suas residências e você resolveu sair para cumprir essa vontade repentina que te deu. Você pisa em poças com o gosto bom de se deixar molhar, de deixar que seu calçado fique encharcado e sua barra da calça também, assovia uma canção antiga andando em passos firmes no ritmo da batida musical que está na sua cabeça, e não importa se alguém vai te olhar com ar de estranheza da sacada no aconchego de sua casa, você está feliz em poder cantarolar ao mesmo tempo que aprecia o silêncio que pairou. Não há nada aberto, nem mesmo bares os bares, os senhores aposentados estão tomando sopa de feijão ao invés de cerveja trincando. Tudo está vazio, é como uma imensidão de nada, e desse jeito fica impossível não se identificar, parece parte do seu interior neste momento. Os gatos passam, as folhas caem, o céu se abre e talvez o sol apareça amanhã. Hoje você sentiu coragem de sair só e se deixou umedecer, mas não ficou tão só quando os postes iluminaram a rua para que pudesse ter a companhia da sua sombra e foi além das lágrimas que escorreram no banho, as gotas que escorrem agora se juntam formando as poças d'água que você não hesitou em pisar no início da caminhada. Parou e pensou, a vontade se passou como nasceu, assim, de repente. Você olha pra trás e não sabe mais como voltar, não sabe nem dizer se tem volta ou recomeço. Não sabe por onde começar, não sabe dizer como acabou. Tem certeza de que acabou? Suas mãos gélidas e inquietas dentro do bolso da sua jaqueta indicam que sim, seu coração teima em dizer que não, e a vontade repentina que aparece agora é a de chorar, coisa que já te cansou porque a graça está em beber para poder liberar seu pranto. É alívio e sufoco, é uma procura de tentar se conter o quanto e como puder porque ainda existe um abismo aí dentro que foi aberto há algum tempo, e o chão que se abriu sob seus pés naquele dia não se fechará como aquele simples zíper o fez em sua jaqueta. É verdade que suas dores perduram? Dói como uma ferida que foi aberta pela manhã, o choro só vem à noite. Então, você volta para casa com um baita cansaço mental, se deita de barriga vazia e dorme até não querer mais...


(Estou aqui para cessar o seu pranto, para aliviar e tornar bela suas dores. Estou aqui para cuidar de você sem que me note para que me sinta como o vento. Estou aí, mas você não vê. E você, não vem?).